Algumas vezes, você se vê pressionado a emprestar seu equipamento.

 

Esse sentimento de apego ao instrumento varia muito de pessoa para pessoa, mas no geral, todo baterista prefere emprestar o carro, sua jaqueta favorita, até mesmo a namorada! Tudo menos seu equipamento de bateria!

NÃO, não e não!

Já passei por situações em que não exitei ao dizer NÃO. Certa vez, uma banda veio de muito longe (mais de 1,000/km) para ser atração principal de um evento em que eu também tocaria com uma das bandas que trabalho.  

Ao fim da minha apresentação, o produtor do evento veio me pedir emprestado várias peças como presilha de chimbal, banco, pedal, etc, para a tal atração principal da noite. Eu recusei e continuei a desmontar minhas coisas.

E então veio um membro da tal banda (que não era o baterista) pedir as mesmas coisas. Recusei novamente. E lá vieram mais outras pessoas pela terceira vez, só que apelaram com a seguinte frase: "Se você não emprestar, a gente não vai tocar".

Quer dizer que você não trouxe seu equipamento e a culpa é minha?

Continuei a desmontar e pedi para deixar bem claro para o produtor do evento que não emprestaria e que a minha banda não tinha nada haver com isso.

Naquela situação, julguei que um baterista que veio de tão longe, teve tempo suficiente para ligar para a produção para ter resolvido essa situação horas antes de subir no palco; ou mesmo, passar em alguma loja para comprar uma presilha de chimbal. Se tivessem me pedido antes, talvez tivesse emprestado. Mas me cheirou muito oportunismo. Será que agi certo?

OUtra situação

Um certo baterista, no qual por várias ocasiões dividimos palco, em diversos shows veio me pedir emprestado a mesma peça de bateria. Ou seja, ele não havia esquecido, ele simplesmente contava com a sorte de que sempre alguém iria salvar o seu couro. Emprestei uma. Emprestei na segunda. Na terceira eu emprestei mas não sem antes dizer: 

Vou te emprestar hoje só para você lembrar que da próxima vez, não irei emprestar.

Por que tanto ciúmes?

Normalmente irei dizer NÃO ao me pedirem equipamento emprestado se...

  • Se eu não conheço o baterista (seja ao menos por nome);
  • Se eu sacar que o baterista simplesmente não trouxe o equipamento por contar com a sorte;
  • Se eu simplesmente não puder ficar no local para emprestar o equipamento;
  • Se eu estiver fora da minha cidade ou a banda seja de fora, dificultando a devolução da peça solicitada;
  • Se as peças solicitadas forem algo muito pessoais como pratos frágeis (ataques, splashes...)
  • Se eu perceber que o baterista está apenas com preguiça de montar suas próprias coisas.

Você já tocou sem pratos?

Recentemente aconteceu um caso que agora, acho engraçado. Toquei um evento próximo de minha casa, na mesma cidade onde resido. Levei várias coisas, pratos diversos, até um chimbal a mais.

Por conta da minha banda ser a segunda apresentação da noite, emprestei todo meu kit (ferragens, pedais, caixa, pratos, sistema de monitoração, etc) para o baterista da primeira banda, um colega baterista conhecido de longa data. Isso adiantaria a troca de palco, facilitando para mim (que pude passar som com calma antes do evento abrir suas portas) e também facilitei para meu colega.

Por um certo cuidado que insisto em manter, apenas não emprestei os pratos de ataque (acredito que isso poupa qualquer constrangimento com pratos rachando na hora e mãos erradas). Vale lembrar que o meu amigo baterista tinha seu set de pratos em mãos e não ficou desamparado sem meus pratos de ataque. Abaixo, eu no set do primeiro show da noite:

Encerrei a apresentação da foto acima antes das 23h; logo depois pude vir pra casa descansar e me preparar para o próximo show, com outra banda, e que aconteceria na madrugada, as 3 da manhã.

Por conta das diferentes sonoridades das duas bandas que toco, decidi tirar alguns pratos da bolsa e trocar por outros. Mas o pior aconteceu. Esqueci de por a bolsa de pratos de volta no carro!

O resultado disso, está na foto abaixo:

Acredite, essa foto do kit é exatamente como usei durante a apresentação; sem prato algum!

O local ficava a 1 hora de viagem da minha casa e só fui me tocar da ausência dos pratos quando já estávamos nos preparando para subir no palco.

A parte triste é que a banda que estava tocando antes da gente, contava com um baterista que, apesar de me conhecer, julgou mais correto não me emprestar os pratos - talvez por eu estar dentro de algum critério da lista de "não-emprestar" que citei acima.

Não adiantou chorar; nem pedir o básico: chimbal e condução. O baterista foi irredutível.

tive que aceitar o meu erro e o desafio de me superar. Não podia comprometer toda minha banda perante o contratante e o público.
— Gilson Naspolini

Eu tinha todas as ferragens no carro, mas para quê se não haveriam pratos? Me armei apenas com caixa, bumbo, um tom, um surdo, e bumbo. Ah, e um chocalho que chamo de "ovinho", que fez as vezes de chimbal em algumas músicas, chacoalhando no microfone que também usei para cantar minhas linhas de backing vocal.

Felizmente, quase na metade do show, um amigo estava na festa. Dono de um estúdio de ensaios, ele tinha um kit de pratos com ele; foi a salvação. Me senti no maior kit de bateria do mundo, quando me vi usando um chimbal e um condução! Assista abaixo:

Não julgo mal o baterista que não me emprestou o equipamento! Não posso culpar alguém por uma falha minha, por mais que tenha sido um acidente.

Ah, e na semana seguinte a sorte voltou: em outro show (com outra banda), usei todo o equipamento emprestado de um outro baterista, a convite dele! "Toca aí Gilsão, vai facilitar para você e para mim", disse o baterista, gente fina. Pratos top, e tudo mais. 

Ou seja, gentileza gera gentileza. Uma hora suas ações voltam para você.

E quando dizer sim?

Quando alguém me pede algo emprestado eu digo SIM se:

  • vejo que o baterista está em apuros (uma pele estourada; pedal que quebrou; pedestal com parafuso espanado, etc)
  • o baterista é de minha confiança, seja por amizade ou por acreditar na técnica/educação dele;
  • se irá facilitar para todo mundo (quando preciso deixar meu equipamento montado);
  • Se o baterista precisa de algo e acima de tudo souber me convencer de emprestar!

bom samaritano

Já emprestei equipamento para os mais diversos bateristas (inclusive famosos como Aquiles Priester e Kiko Freitas). Na maioria das vezes foi um prazer ajudar. Realmente acredito que isso volta para você. Já precisei de caixa emprestada durante o show pois a pele estourou por exemplo, e várias vezes fui ajudado até por desconhecidos.

Então fica a lição: não se apegue demais, ajude o próximo - não apenas com equipamentos de bateria! Mas não seja o "trouxão", aprenda a diferenciar quem está precisando de você dos que estão querendo apenas se aproveitar.

E você, já precisou de algo emprestado numa emergência? Já salvou alguém de uma enrascada? Conte aí pra gente nos comentários!

Grande abraço,

Gilson

10 Comments